terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um jeito Pollyanna de ser...



Neste fim de 2008, ouvimos muito de crise e de como tudo será cada vez mais difícil de agora em diante... Acho triste começar o ano de 2009 vibrando em negatividade. Tem uma citação que diz: "Procure o mal na humanidade esperando encontrá-lo e você certamente achará". Parece que este é o tema no qual a passagem de ano vai estar mergulhada.

Mas eu proponho substituir a palavra "mal" da citação por outra: "Procure o bem na humanidade esperando encontrá-lo e você certamente achará!". Eu proponho começar 2009 com menos críticas e apontar de dedos e mais solidariedade e compaixão.

A teoria é a seguinte, se construímos uma história humana tão feia e sórdida até hoje por constantemente reafirmar palavras/pensamentos/atitudes condenáveis será que não conseguimos construir um futuro melhor se passarmos a afirmar mais amiúde palavras/pensamentos/atitudes mais elevados? mais ideais?

Essa é a premissa da iniciativa Imagens e Vozes da Esperança, que procura convencer profissionais de mídia a atuar como agentes de benefício para a sociedade. Alimentar a mídia de imagens e notícias ruins é o mesmo que alimentar o movimento da engrenagem no sentido errado, o que produz somente mais coisas ruins e feias! Há que se concordar que este "fim dos tempos" nada mais será do que a consciência de que a engrenagem precisa começar a girar no sentido contrário e para tanto, a máquina vai parar, vai soltar um terrível grunhido e vai fazer voar muitos parafusos pelo ar... e aí, quando parecer que quebrou de vez, vai começar a rodar no sentido certo...

Não quero plantar uma esperança ingênua... sei que veremos o impublicável. Assistiremos e participaremos de um futuro que não queremos. Que queremos achar que não merecemos. Mas é necessário confiar que julgamentos amargos são, na verdade, bençãos disfarçadas (como Oscar Wilde bem disse um dia).

Então eu acho que a premissa da IVE não se aplica somente aos profissionais de mídia, mas a todo e qualquer ser humano. É como quando Frodo se queixa de que não gostaria de estar naquela situação em que se encontravam e Gandalf diz "Assim como todos que vivem para ver tempos assim, mas não cabe a eles decidir. Tudo o que temos que decidir é o que faremos com o tempo que nos foi concedido". Se temos que decidir o que fazer com nosso tempo sugiro que a alegria seja um guia na busca desta resposta. A alegria de viver será muito mais útil do que a eterna disposição humana por criticar, se entristecer e se desesperar, por culpar, julgar e condenar qualquer um e nunca a si próprio. É por isso que me refiro à menina Pollyanna e a esta linda canção do Nat King Cole: Sorria quando seu coração estiver dolorido. Sorria mesmo se ele tiver se partido... Sorria, e talvez amanhã o sol brilhe para você!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O mundo em branco

Clique na imagem para ver em tamanho ampliado.

Passada a loucura do Natal (aliás, li as mais fabulosas crônicas do Rubem Alves à respeito disso... ele é mesmo lindo!!!) eis que eu me lembro que tenho um blog para cuidar!!! Mas a verdade é que ultimamente não tenho me sentido muito inclinada a escrever ou articular sobre nada. Não que falte assunto... mas sentia uma enorme vontade de calar! Calar a boca (ou os dedos) e ouvir o coração... Talvez porque esta seja (ou deveria ser) uma época de amor...

Enfim, estou até reticente e cheia de parênteses (como podem perceber) ...

Anyway, eu tinha guardado para a ocasião do ano novo, a mais poética tirinha do Calvin (meu garoto fictício predileto, ao lado do Petit Nicolas) e não podia deixar de postá-la!!! Parece que é a última tira que o Bill Watterson publicou e, fora o fato de ele ter marcado o fim como sendo a possibilidade de novos começos (o que por si já justifica eu querer postar isso aqui no Kalyug) até o Calvin está imbuído de uma nova postura! Sem sua adorável e costumeira rabugice ele também é um menino novo em um mundo novo. E o mais importante - da mesma forma que ele parece ter escolhido abandonar este traço, que por mais adorável que seja, não soa muito como uma virtude - ele decide não abandonar outra característica mais adorável ainda: sua imaginação de criança; que vê o Hobbes como um tigre de verdade e um velho companheiro e não apenas como um bicho de pelúcia.

Chamo atenção para isto porque muitas vezes ansiamos por novos começos e abandonamos o que temos de melhor acreditando que novos começos são apenas folhas em branco prontas para ser rabiscadas e não um mundo branco que guarda, por baixo de toda a neve, coisas antigas e fundamentais. E daí, quando o verão derrete toda a neve nos assustamos com o que esquecemos, e que tornou-se visível novamente, agora que a frescura da novidade não é mais tão recente.

O que tento dizer com isso é que possamos saber que cada novo começo esconde a bagagem de um antigo fim, e é nosso trabalho decidir sobre o que levaremos e o que deixaremos para trás.

Feliz Ano Novo para nós todos!!!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Vinicius, Mary Poppins e um tubo de ensaio

"Quanto mais rimos, mais nos enchemos de alegria.
Quanto maior a alegria, mais feliz o "nós" que nós somos!"

De proporções revolucionárias é a pesquisa publicada hoje pelo British Medical Journal, que afirma que a felicidade (ou infelicidade) é contagiosa e atinge quem está ao redor. Parafraseando a publicação: "A felicidade de uma pessoa depende da felicidade daqueles com quem a pessoa em questão está conectada."

Esta tese lança uma nova perspectiva para o conceito de felicidade, de saúde e de redes sociais. A partir dela a felicidade deverá ser encarada como saúde, como "fenômeno coletivo". O que implica que medidas políticas e sociais devem contemplar esta emoção.

Não admira que a pesquisa nasceu em Londres. Já ouvi dizer que por lá, a preocupação com o coletivo é premissa básica de políticas sociais. Um elemento doente afeta todo o conjunto. Na contramão, um elemento saudável deve ter o mesmo poder. A abordagem positiva da pesquisa também é revolucionária. Observar os aspectos positivos de determinada coisa já fundamenta a construção de uma realidade positiva.

Falar em Londres eu tenho a imagem perfeita disso: vocês que assistiram Mary Poppins vão se lembrar de quando ela vai visitar o tio e ele está voando pela sala de tanto rir, enquanto canta I love to laugh vai contagiando todos os que chegaram de visita e estes, logo quando começam a sorrir tornam-se leves e vão voando juntar-se ao"chá aéreo" do anfitrião.

É tão bom saber que podem provar cientificamente uma coisa que a intuição já diz faz tempo. Trazendo isto para a realidade do cotidiano, todos já sentimos isto. Por mais sutil que pareça, o humor de quem nos rodeia têm enorme influência no nosso próprio humor. Mas não sei se estou certa em definir felicidade como sendo humor... Eu encaro mais como decisão. Como escolha. Todos os dias você pode decidir se quer ser feliz ou não. Taí Vinicius, seus versos têm agora o crivo da ciência: É melhor ser alegre que ser triste!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Um tapa na cara

Estou tão estupidificada com a argúcia com que o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella vê o panorama da atual realidade e todas as armadilhas que se interpõem incessantemente no caminho da humanidade, que é difícil escrever qualquer coisa a respeito (É mesmo um tapa bem no meio da cara da sociedade que estamos construindo dia após dia)

Por isso, vou colar o texto exato que recebi da fonte! (minha prima querida, que por sua vez recebeu de sua madrinha querida e resolveu compartilhar com todas as pessoas que lhe são... adivinhem... queridas!)

Porque dentre as várias conclusões que se pode tirar da palestra deste sábio, uma delas é o valor de se compartilhar a vida com pessoas queridas. Mas esta é apenas a mais superficial delas. Assistam e comprovem.

"ASS: Qual é o mundo que você está ajudando a construir?‏

Oi pessoas,

volta e meia me pego agradecendo a Deus pela família que tenho. Desta vez achei melhor compartilhar com as pessoas que quero bem o presente que recebi da minha madrinha.
Fui presenteada por ela com este video incrível, para aqueles que são pais, os que já foram e os que ainda serão. Parem por 30 minutos e ouçam o que este grande educador, MARIO SÉRGIO CORTELLA, está alertando."





sábado, 29 de novembro de 2008

Ir para casa


É de 2002, mas podia ser de 1654 ou 2189. O tema desta narrativa é universal e atemporal. Eu sempre me emociono com boas histórias que são simples e que bem poderiam ser vividas por qualquer um! Na verdade, acho que o que encanta nela é que de fato cada um de nós vive a sua própria versão desta mesma história... trata-se da trajetória arquetípica de todo ser humano.

Terra de Sonhos conta a história de como uma família irlandesa sai em busca do sonho americano e cada agrura do caminho os une e os ensina. Histórias sobre famílias que superam unidas as adversidades me cativam muito, pois refletem o conceito de compromisso com a evolução espiritual de todos os membros dela. Histórias sobre crianças que chegam e colorem a vida dos adultos provocando uma simbiose irreversível de cuidado e aprendizado tocam lá no fundo do meu coração, porque refletem o conceito de responsabilidade e reciprocidade.

Esta história expõe como cada perda que sofremos é ao mesmo tempo adubo para a esperança de cada sonho que nutrimos. Expõe como a fuga de um passado doloroso muitas vezes nos guia sempre de volta até que tenhamos coragem de expurgar cada dor abandonada. Expõe como morte e nascimento são um só conceito, e uma só força. Expõe como a luz pode sim nascer nas trevas e por mais tênue que pareça é capaz de afugentar toda a escuridão.

Esta história é capaz de mostrar o poder avassalador de esperanças que são negadas a cada manhã, agonizam no percurso do dia e a beleza da lua pode insuflar ânimo novo para que se fortaleçam durante o sonho! É uma história sobre como mágica e milagre são elementos tão presentes que às vezes nos esquecemos de enxergá-los.

É uma obra sensível sem ser sentimentalóide, que equilibra extremos. É universal sem parecer generalizante, que contempla o particular e individual, e cresce à medida que é revelada até mostrar que ascese (que também pode ser chamado de "ir para casa") tem a ver com saber o que é bagagem para carregar e o que é para deixar pra trás! Enfim, uma questão de equilíbrio.




sexta-feira, 28 de novembro de 2008

H2O


Solução in-crí-vel que mostra como o design pode ajudar a mudar o mundo! Acho tão bom ver uma idéia ou conceito assim sintetizado numa imagem simples, que qualquer um bate o olho e sabe do que se trata... O design resolve o problema da percepção deste fato urgente, simplesmente criando imagens comparativas.

Mas, em tempo: olha como é grave o problema da água. Saber que são gastos mil litros de água para produzir 1 único litro de leite me faz pensar se faz sentido continuar a beber leite! Acho que a resposta é óbvia né... Pelo menos enquanto a indústria de alimentos funcionar nas bases que funciona. E a roda só pode ser invertida se os consumidores por quem este mercado se movimenta, mudarem seus comportamentos de consumo. O rabo de uma coisa é a boca da outra!

Na ilustração, cada gota de água equivale a 50 litros de água virtual! Aliás, isso me lembra Magritte. Isto não é um cachimbo! A imagem de uma coisa não é a coisa em si... Então cuidado: Isso ali em cima não é água! Água virtual não é água real... Enquanto na tela as gotinhas estão ali bem paradinhas, no mundo real elas estão acabando.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

la mort


"Você foi feliz nessa vida"? "Sua vida fez outras pessoas felizes"?
Segundo a poética crença egípcia, estas duas perguntas simples eram os fiéis da balança que indicavam se, depois da morte, aquele espírito podia ir para o paraíso. Bastava uma única resposta negativa e Anúbis apontava com seu cetro direto para o caminho da danação.

A morte soa assustadora para muitos. Mas porque expõe como a vida foi de fato vivida, ela é o único extremo capaz de nos mostrar de que forma ela DEVE ser realmente vivida. Não sou fã de dogmas, detestos regrinhas que generalizam e condenam cada nuance da existência individual a abranger o âmbito comum e tornar-se desesperadamente uniforme e fechada. Isso não combina com a idéia de a vida ser um contínuo colher de experiências.

No entanto, o âmbito comum é ao mesmo tempo indispensável para que cada experiência seja real e, portanto, válida. Ser feliz está intrinsecamente condicionado a fazer os outros felizes.
É uma lei do universo. Como a máxima ditada pelos antigos que diz: cuidado, os egoístas morrem sós. Na verdade, esse pensamento é equivocado. Todos morremos sós. A morte é um portal que não se atravessa de outro modo, a não ser sozinho. Mas associar egoísmo e solidão é o mesmo que associar altruísmo e integração, só que do outro lado do espelho.

Outra coisa de que não gosto, o maniqueísmo que impõe determinismos condicionantes e portanto, dogmáticos. E, no entanto, há que se enxergar cada extremo... o positivo e o negativo, que são como abismos enormes de cada lado do caminho enquanto a trilha é como o fio de uma faca no qual nos equilibramos do nascimento até a morte.

Pra muita gente essa imagem faz um sentido tremendo. E aí fico especulando... será que então,
caminhar junto é como alargar um pouquinho essa estrada, tornando-se mais livre e dessa forma, evitando cair nos abismos? Será que é por isso que os homens são seres gregários?

Pode soar estranho colocar o Bem ideal como abismo assustador... mas para nós, que somos imperfeitos eu acredito que é assustador sim. É inconcebível. Nossa visão limitada só faz enxergar o espaço entre dois limiares, mas nunca o que há de lá das fronteiras... Por isso a vida terrena depende de equilíbrio e vigilância constantes...

Mas aí, quando morremos... cai finalmente o pano. E podemos ver. Bem estilo The Doors, mas sem todo o LSD: Quando as portas da percepção forem abertas, as coisas irão surgir como realmente são, infinitas! Infinitas, porque são capazes de abranger os dois extremos, ao mesmo tempo... e então não há mais subterfúgios ou álibis.

Nossa, um post tão misterioso quanto a própria morte!
C'est fini.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O futuro da comida



Expandindo o conceito de que você é o que você come, eu a-m-e-i a simplicidade com que este filminho do Ministério da Agricultura do Japão explica a intrincada idéia de que a humanidade é o que a humanidade come. Ou seja, os hábitos alimentares de uma sociedade influenciam diretamente na paisagem social-política-econômica e, sobretudo, ambiental circundante!

O roteiro é um apelo para que o cidadão japonês, enquanto elemento de uma nação que importa a maior parte da comida que consome, se torne consciente do impacto que seus hábitos alimentares (que mudaram drasticamente com o advento da globalização) causam tanto no micro como no macro ambiente. Além disso, fatores externos (como emergências climáticas, exaustão do solo de cultivo, crescimento populacional mundial, etc) combinados à hábitos pessoais aceleram a bomba relógio que a humanidade, terrorista de si mesma, atou à expectativa de vida do planeta.

Claro que o roteiro não é assim tão apocalíptico quanto meu texto. Imagino que o ministério da agricultura japonês não possa ser tão dramático e alarmista quanto uma anônima pessoa cujo blog não é lido/comentado por ninguém e que conta com a soma surpreendente de 1 (um) seguidor(es)!!! (Valeu, mãe.)

Enfim, crises de ego à parte, o filminho desdobra todo o panomarama desde a mesa do jantar até a crise global de alimentos para alertar sobre a urgência de voltar aos velhos hábitos, consumir produtos regionais e assim salvar o planeta. Eu nunca gostei da visão positivista que quer fazer acreditar que os indíviduos são engrenagens de uma máquina... e muito embora, a estética do vídeo pareça adotar uma narrativa mecanicista, ele não comete esse pecado.

Talvez o ritmo fordiano da edição não me pareça antipático aqui porque o objetivo não é de exploração, ao contrário, é sim de preservação! E coloca o individuo como ponto de partida para cada mínima e necessária transformação. Como naquela metáfora da lagarta que se transforma em borboleta, cujo bater de asas é capaz de alterar o curso de um furacão.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Pra onde vai esse ônibus?

É uma coisa boba e corriqueira, mas estou ficando triste com o fato de que a humanidade precise de plaquinhas que digam como ser um ser humano. Eu ando de ônibus e metrô e vejo as plaquinhas de assento preferencial e fico pensando: a que ponto chegamos para não sabermos mais que devemos dar preferência para idosos, mulheres grávidas e deficientes?

E ainda presencio quem se faz de cego até aos apelos impressos!

Hoje abri uma revista e dei de cara com um anúncio sobre consciência negra, cujo apelo era sobre respeitar e valorizar o potencial de cada um e não ver diferenças. Mas quer enfâse maior para a diferença do que hastear uma bandeira sobre ela ou separar cotas raciais?

Para mim isto só escancara a hipocrisia imperativa das relações humanas que escolhemos construir ao longo de séculos. Nada encoraja a ter atitudes que partam do íntimo de cada um. Não! Basta ter uma cara social, uma máscara para usar em público, basta pendurar plaquinhas por aí e criar absurdos como cotas para dizer que somos civilizados.

Pode soar utópico até para os mais românticos, mas não seria tão mais simples um mundo onde gentileza não rimasse com hipocrisia e sim com espontaneidade?! Onde não precisassêmos lançar mão de argumentos como "não ver as diferenças" para acreditar na verdade de que diferenças existem e graças a elas somos indivíduos, e que devíamos aprender a respeitar cada indíviduo (ao invés de fazer vista grossa às diferenças) simplesmente porque isso implica ser correto e ético?! E não apenas polido ou treinado na cartilha do politicamente correto, criando grupos e guetos dentro dos quais os indíviduos se enquadram e tornam-se massa? Amorfos, indistinguíveis e eternamente intangíveis justamente no que define cada um deles como um ser individual: a diferença!

O que fizemos até hoje é perguntar a cada um num teste de multípla escolha (reduzida a talvez quatro variáveis, se muito): Você é diferente, como item a) fulano / b) ciclano / c) beltrano ... ? E daí colocamos um rótulo para assegurar que dentro da respectiva gavetinha paradigmática todos estão classificados, contabilizados e controlados!

E para ser sincera, as plaquinhas do ônibus são incompletas. Deveriam dizer: Este assento é preferencial para idosos, gestantes, deficientes, quem estiver carregando crianças ou muitas sacolas, quem sofre da coluna, quem vai descer num ponto bem depois do seu, quem precisa cochilar antes de chegar no trabalho porque acorda de madrugada para pegar o ônibus... e impreterivelmente: se houver uma mulher em pé no ônibus, não deviam haver homens sentados! humpft.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pare de falar (de novo)


Que sacada o simbolismo desses filmes da campanha da IBM sobre redução de carbono! O cara cria intervenções urbanas limpando e lavando as marcas desse resíduo que até hoje não sei se estamos mesmo nos esforçando o suficiente para extirpar de nossa rotina e de nossa cultura. Anyway, eu gostei do conceito criativo e acho que mais legal do que só assistir e dizer: cool, man!!! seria se ele realmente fosse um start na forma de questionarmos e tentarmos começar a mudar (nem que seja um pouquinho só) ...

Pra manter a sincronicidade, o continuum de um dos posts anteriores, o nome da campanha é: Stop talking, start doing = pare de falar e comece a fazer; e você pode conhecer mais a respeito aqui.




segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Cismar = Engasgar (?)

Assim como O Clube da Luta não é um filme sobre pancadaria, Choke, escrito pelo mesmo Chuck Palahniuk, não é um filme sobre sexo... Mesmo que 80 % do filme seja composto por cenas de sexo explicíto, a impressão que se tem parece o dilema do protaganista: É sexo demais e ainda assim, é sexo nenhum.

Não sei se à primeira vista faz sentido comentar dele aqui no blog... Mas, pra mim, este filme está afinadíssimo com o que venho pensando sobre revolução do próprio íntimo como alavanca para mudar o que nos cerca.

Choke apresenta os mesmos elementos de O clube da luta: o grupo de apoio, os mecanismos alternativos para burlar o sistema das coisas, o questionamento paranóico sobre a masculinidade na era contemporânea, o cara grandão e maternal... um anti-herói cujas fraquezas são cativantes. Não sei se porque quem o interpreta é o ótimo Sam Rockwell, mas por mais disgusting que ele soe nesse papel (como na maioria dos que ele interpreta), ainda é possível simpatizar com ele e com suas fraquezas.

Outra constante é o comportamento viciado que faz a teoria nietzschiniana do eterno retorno fazer cada vez mais sentido na minha cabeça. Numa perspectiva hinduísta: nada pode mudar a não ser que mudemos. Estamos presos num ciclo repetitivo até que possamos perceber que só chegaremos em outro destino se mudarmos o caminho pelo qual seguimos. Ou ainda: não adianta reclamar que não é possível alcançar determinado objetivo se, justamente, estamos nos encaminhando em direção oposta. Parece óbvio, mas é incrível como cismamos em fazer exatamente isso o tempo todo!

Não quero estragar a surpresa de quem ainda não assistiu o filme, mas uma das iluminações que o protagonista alcança diz que a vida pode fazer de nós muitas coisas: as pessoas e a sociedade nos determinam, nossa história pessoal nos determina, as experiências que tivemos nos definem... mas no agora, só nós mesmos podemos dizer e ser quem somos de fato. E é isso o que distingue a identidade de cada um.

E é essa espécie de consciência que, quando alcançada, faz temas centrais da vida da gente parecerem bobos e sem sentido. E aí, eles deixam de ser centrais. Deixam de importar... só porque tivemos a coragem de colocar o que acreditamos ser as nossas questões primordiais de lado. Porque tivemos a coragem de nos desapegar delas. E aí transmutamos o caminho que até então percorríamos e passamos a seguir na direção que leva ao destino desejado.

Mas isso foi o que eu escolhi ver... tem gente que só vai ver sexo no filme! E isso também faz parte da mesma lição.

A trilha sonora também é um espetáculo à parte. A música do Clap your hands and say yeah!, Satan said dance, dá o tom do que seja vício: é a exaustão. É o extenuante ato de repetir e repetir e repetir algo até tornar-se sem conteúdo, vazio, pobre e fraco. É o ciclo repetitivo do eterno retorno. O carma hinduísta. E ele é reproduzido exaustivamente até que mudemos de escolhas. Até que enxerguemos perspectivas, de fato, novas. E não álibis para continuar errando e acreditando na ilusão de que nosso anseio pela mudança é verdadeiro. Só pode ser verdadeiro quando verdadeiro for. Parece óbvio... mas é incrível como continuamos cismando...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Pare de reclamar e AJA

A India é um país que vem apontando como promissora potência em campos tecnológicos antes reservados somente aos países ricos e soberanos. Daí que é legal e inspirador ver como seu povo (que semelhante ao povo brasileiro deve padecer com o sentimento de inferioridade) está lutando para recuperar o orgulho e a dignidade próprios.

Parece que em 2007, lançaram um reality show de cunho extremamente político chamado Lead India que pretende desvendar pessoas com potencial para liderar o país e mudar coisas sobre as quais todos até agora só reclamaram, ignoraram ou fizeram piada a respeito. Longe de ser um Big Brother engajado, a proposta pode soar tosca para quem já está de saco cheio de banalizações... só que, por outro lado, o voyerismo inerente aí faz com que ela soe surpreendemente democrática. Afinal, também estamos de saco cheio de falácias.

Anyway, a mensagem residual desse filminho (que achei de uma singeleza cativante) é a de que se todos parassem de praguejar a respeito do que está ruim e se posicionassem como agentes da mudança as coisas não teriam outro destino senão melhorar! Tá que o mote de que a união-faz-a-força seja um clichê... mas numa época de ado-ado-ado-cada-um-no-seu-quadrado, resgatar clichês pode ser relevante, pode ser inspirador, pode mudar a rota de quem até agora se movimentou apenas por inércia.

Falar em clichês, o protagonista só podia ser mesmo uma criança. Crianças não se enrijeceram com padrões previamente estabelecidos. Crianças são capazes de realizar coisas que os adultos julgam impossíveis. É por isso que o futuro são as crianças. E no entanto, pensar isso é continuar enrijecido; porque assim nos livramos da responsabilidade de fazer do futuro um lugar melhor.

Mais certo seria entender que para mudar alguma coisa temos que encontrar a criança que mora em nós, ou seja, temos que jogar fora o que acreditamos conhecer e saber e nos guiar pela intuição. Porque ela confia e se adapta às leis que regem o universo, porque sabe que não há outro modo de alcançar a harmonia e a evolução senão através da humildade de desempenhar o papel que lhe cabe e da responsabilidade de seus atos.

A trilha sonora reflete o mesmo conceito do roteiro e traduz uma mensagem bem clara e simples: Tenha orgulho da sua existência e das suas ações e nada será impossível. Eu até achei a letra original em hindi, urdu ou sânscrito (?!) do compositor Gulzar Saab e vou reproduzi-la abaixo para quem quiser gostar mais ainda do filmito!

TUM CHALO

Falak pakad ke utho, aur hawa pakad ke chalo 2x
Tum chalo, to hindustan chale 4x

[Lagao haath ke suraj subah nikala karein
Hatheliyon bhare dhoop aur uchhala karein ] 2x
Ufaq pe paav rakho, aur chalo akad ke chalo
,
Falak pakad ke utho, aur hawa pakad ke chalo 2x
Tum chalo, to hindustan chale 4x

(que, em linhas gerais, significa: Segure o céu para que ele permaneça no alto e caminhe carregando o vento em suas mãos. Seja o corredor que segue em frente , porque quando você caminha, a India caminha com você. Use suas mãos para fazer o sol nascer pela manhã. Preencha suas mãos com os raios solares e os semeie ao seu redor. Mantenha suas pernas no horizonte e caminhe com orgulho, pois quando você caminha a India caminha com você.)


video

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Começa com uma garota...


Eu achei incrível o modo como com tipologia e música esse projeto pretende mudar o futuro da humanidade.

Pena que tem só em inglês, mas eu conto o que quer dizer pra quem não sabe: Quando vc abre o site vem uma pergunta logo de cara: "O mundo está uma zona?" e vc pode clicar em "concordo" ou "não concordo" para continuar.

Creio que 99,9% das pessoas vai concordar, mas quem não concorda acaba sendo convencido do contrário e o site apresenta um videozito que achei genial! Construído exclusivamente a partir da dinâmica da tipografia que conta o roteiro acompanhado de uma trilha sonora delicada, você é levado a imaginar a situação de uma garota que vive na pobreza. É levado a imaginar o que aconteceria se você pudesse ajudá-la de alguma forma a melhorar sua vida. Basicamente a idéia é essa: se a vida dela melhora, a vida dos que estão ao redor dela melhora, e consequentemente o futuro da humanidade melhora.

Não há nada de original nisso. Mas a verdade tão contundente de uma lógica tão simples expressa através de um design fantástico é a imagem mais adequada para convencer a sociedade dos tempos de agora. É aquela velha questão que Mark Rothko já expôs de que cada época precisa de suas próprias imagens, ou coisa parecida...

Ter que imaginar essa garota num contexto cultural caracterizado por ser extremamente visual, onde todas as imagens estão prontinhas para o consumo e para que nossa imaginação torne-se cada vez mais estéril, faz com que ela, a garota, seja mais real do que se figurasse num filme kind of melodramático, não concordam?!

Imaginar a tal garota é como fazê-la nascer dentro de nós e permitir que ela habite nosso imaginário... concordam? Imagino que se a solução criativa aqui fosse um filme no estilo tradicional, que pegava uma garota e a fazia interpretar a garota pobre do roteiro, quem assistisse o filme acabaria por não dar valor a ela, a garota... Acabaria por vê-la tão longe de si, que ignoraria o apelo da mensagem.

Quando imaginamos, a coisa imaginada fica morando dentro da gente. E é por isso que acredito que este projeto pode dar certo. Porque parte do íntimo de cada um que se desafiar a imaginar uma garota e a acreditar que tornar-se melhor, é tornar outros melhores e é tornar o futuro melhor.

Outra solução que achei incrível foi a estruturação do site em três itens: "aprenda", "mude", "compartilhe"... Não concordam que podemos usar os mesmos três passos para melhorar qualquer coisa que quisermos?!

De mais a mais, não é difícil concordar com o fato de que um futuro melhor não seria má idéia e se essa tarefa está em nossas mãos, por que se recusar a abraçá-la?! Concordam?!

domingo, 7 de setembro de 2008

Feliz, dos pés até a ponta do nariz.


Eu comprei esse livrinho pra minha filha... e o acharia despretensioso não fosse o display na livraria anunciando-o como "altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil". Mas só por isso mesmo... ah! e pelo fato de a autora ser premiadíssima...

Mas trata-se realmente de um livrinho lindo e despretensiosamente escrito, ilustrado ao estilo de Sempé do meu querido Le Petit Nicolas... E digo que justamente porque é tão simples é que é tão genuíno e verdadeiro.

Conta a história da ovelhinha Selma, cuja rotina de comer grama, ensinar as ovelhas bebês a falarem, comer mais grama, praticar um pouco de esporte, papear com a Dona Maria e dormir é a sucessão de eventos mais enfadonha de que já ouvi falar e a única que faz de Selma uma pessoa, ops, ovelha plena e feliz!

Surpreende que ao ser questionada sobre ter mais tempo ou ganhar na loteria, a fofíssima Selma responde a exata descrição de seu cotidiano monótono como citado no parágrafo ali de cima!

Antíclimax?! Ou receita literária pra pedagogia infantil pós contemporânea? Sim... faço-me essa pergunta porque se os contos infantis que embalaram os sonos ("pedagógicos?") de milhares de nós na infância, fossem estruturados desta mesma forma, não haveria uma quantidade medonha de princesas insatisfeitas que trocariam tudo para se aventurar na companhia do primeiro desconhecido com quem seus caminhos se cruzassem e, diga-se de passagem, a história terminar justamente onde devia começar com aquele frustrante, duvidoso e recorrente "foram felizes para sempre"...

Não haveriam estereótipos de heróis que refletiriam sombras amedrontadoras de síndromes de perseguição por bruxas, dragões e demais antagonistas cuja existência baseava-se única e exclusivamente em tramar o fracasso dos intentos daqueles assim-chamado heróis.

Não haveria a noção de que a felicidade é como um troféu conquistado somente depois de muito sacrifício, prejuízos e vicissitudes...

Poderíamos ter crescido ouvindo que a felicidade é uma coisa simples, tangível e que não a alcançaremos se a vislumbramos como finalidade. Que ser feliz é saber que a rotina diária é uma coisa chata e enfadonha, sem extremos de sexo e violência folhetinescos e ainda assim amar e sentir gratidão por onde se está e o que se tem de fazer... É por isso que mais tempo ou um prêmio da loteria não fariam nenhuma diferença no cotidiano da Selma.

A sabedoria desta simpática ovelhinha que mora dentro de um pequenino livro vermelho de capa dura sim, é que vai fazer toda a diferença no arcabouço cultural e artístico que vai nutrir os anseios da minha filha... tão simples quanto contar carneirinhos na hora de dormir!

domingo, 31 de agosto de 2008

Lar pequenino lar


Viver num espaço reduzido pode soar claustrofóbico à primeira vista, mas um olhar mais cuidadoso mostra que é possível repensar nossas casas conforme o jeito como vivemos. Afinal, quanto espaço ocioso mantemos por status ou necessidades ilusórias?

Viver de forma mais simples e sustentável é o lema de Jay Shafer, o dono da Tumbleweed Tiny Houses, que desenvolve casas mínimas para quem acredita que quanto menor a casinha mais sincero o bom dia. Ele mesmo mora numa casa de 10m² projetada harmoniosamente de acordo com suas necessidades. Que viver assim é mais econômico e ecológico não há dúvida, mas o mais legal é descobrir que o movimento das small houses faz adeptos dentro de uma cultura onde, até então, viver de modo opulento e farto era sinônimo de sucesso e prosperidade.

O que prova que também esta idéia é mais um mito da sociedade contemporânea e que as pessoas estão buscando significados válidos muito mais dentro de si mesmas do que fora, como por exemplo, fazendo dos espaços onde moram vitrines do que realmente acreditam. Em tempo, até diria que esse movimento dialoga abertamente com a filosofia do necessário e útil do design shaker, cujo mobiliário deve cair como luva na decoração desses espaços.

Outra coisa bacana é perceber que estas casinhas geralmente estão no meio de árvores e muito verde. Uma tentativa de integrar o jeito de morar à natureza; estar rodeado por ela ao invés de dominá-la e subjugá-la, tranformando-a em selva de cimento e concreto. Quem é que não quer um petit chateau desses?

sábado, 30 de agosto de 2008

O que você possui?

via: flickr (Willie Chiang)


"Things you own, end up owning you" Esse aforismo do lendário personagem Tyler Durden do filme O Clube da Luta, que sempre cito nos posts quando quero falar sobre a ilusão do consumo, significa (para quem não entende inglês) que as coisas que você possui acabam te possuindo.

Pra quem entende inglês, português e até mandarin significa que nos colocamos dia após dia numa lógica absurda de nos matar de trabalhar com a finalidade de ter e ter cada vez mais coisas... afinal untill you have it all you can't be free... E que o acúmulo delas prova a toda sociedade que somos, com o perdão da redundância enfática; maiores, melhores, superiores e mais hegemônicos que os fracassados que nada possuem... Meio parecido com a fabulazinha da cigarra e a formiga: a contraposição alegórica entre a letalidade implícita no exercício da arte pela arte e a compensação advinda da racionalização do trabalho e extinção do tempo livre.

Mas este não é um post anárquico que continua o parágrafo anterior advertindo sobre as mazelas do trabalho mecanizado e o sacríficio do self enquanto meio de acúmulo de bens materiais... E nem expõe a hipocrisia latente em tal advertência...

Quem quiser ouvir sobre isso pode ler muitos Marx, Adornos, Bakunins e Galeanos.

O que há de novo e válido em toda essa idéia já tão gasta e inócua (inócua porque, no fim das contas, ninguém está nem aí com a baboseira teórica e queria mesmo era ter 4 ferraris e 7 BMWs na garagem de suas 5 mansões) é que parece que até o presente momento ninguém se deu conta de que esse "sonho de posse" só é possível para, chutando alto, 10% da população mundial. Sim, sei que não é uma estatística nova. Todos já cansamos de ouvir a notícia do jornal que insiste em repetir a desigualdade da concentração de riquezas no planeta.

O que ninguém parece perceber é que todos compramos e consumimos o sonho que só muito poucos podem de fato trazer para a realidade. E é justamente esse consumo ideológico que alimenta a aparente injustiça aqui declarada.

Seja pela finitude dos recursos ou espaços físicos e sociais existentes na nossa forma de estruturar as relações humanas, continuar acreditando que a posse material é um fim digno não vai fazer nunca com que o mundo se torne um lugar sustentável. Só poderia ser assim se as chances de todos fossem equânimes na hora da largada. E podemos dizer que são? Podemos dizer que serão someday?

Mas não nos abalemos. Sugiro que cada um que se decepcione com o determinismo desta conclusão, pare de trabalhar feito louco por 2 horinhas e assista a um filminho muito bacana chamado O Mágico de Oz. Não pela Dorothy e seu inseparável trio, nem pela bruxa má do leste ou pelo mágico charlatão. Mas pela mensagem purificadora dessa obra que, em linhas gerais, diz que nada do que nos pode ser tirado pertence realmente a nós.

Deixar-se ser possuído pelas coisas que acreditamos possuir, é o mesmo que deixar de cultivar o que de fato é nosso. Não que o trabalho não seja importante e que muito mais vale ser uma cigarra hippie e violonística sem nenhum vintém. Melhor é pensar que essa cigarra seja remunerada por seu trabalho e que durante o inverno tropical possa mesmo ser contratada para uma temporada em Saint Tropez. E que a formiga possa deixar seu inverno um pouquinho mais alegre ouvindo a amiga popstar no seu mp3 player enquanto descansa do fatigante trabalho da estação passada empanturrando-se com os cereais orgânicos que armazenou.

Isto significa que cada indivíduo é membro atuante de uma comunidade simbiótica e equilibrada, portanto, sustentável. Cada um ocupa o lugar que deseja ocupar por escolha e determinação das próprias atitudes. O que é diferente de ser engrenagem motriz de uma máquina de fazer dinheiro, tempo e felicidade pra alguém que nunca é ele próprio.

domingo, 17 de agosto de 2008

Tantas fadas que eu não vi


Cores, tantas cores
Tais belezas
Foram-se
Versos e estrelas

Tantas fadas que eu não vi

(Ab.sur.do: subst., masc. {latim} desagradável ao ouvido. Algo incoerente e que não faz sentido)

A espera


Filhos da Esperança é sobre um futuro onde e quando os seres humanos não podem mais ter filhos, e vivem numa reduzida sociedade condenada, já que colapsos sociais, destruição ambiental e terrorismo ajudam a construir a conjuntura de uma wasteland desesperadora...

Afinal... se não há futuro, conceitos como esperança, compaixão, bondade, justiça continuam fazendo sentido !?

A narrativa aberta desta distopia do diretor Alfonso Cuarón me deixou pensando sobre um dos capítulos contidos no livro A Luz da Verdade. Na dissertação "O mistério do nascimento", Abdruschin mostra que crianças trazem bençãos porque o nascimento delas é uma chance de remição espiritual para aqueles que as cercam.

Os cuidados e educação que crianças necessitam oferecem tantas oportunidades de exercício do amor ao próximo que é por isso que cada nascimento deve ser considerado uma dádiva e uma possibilidade de ascensão.

Associar essa visão ao filme o torna ainda mais especial. Se nenhuma criança nasce nessa sociedade da ficção é porque nenhum daqueles seres humanos merece mais evoluir espiritualmente? Perderam todas chances? Se sim, então esperança, compaixão, bondade, justiça realmente não fazem mais sentido... Mas será que um forte anseio conjunto por estes mesmos conceitos perdidos pode ser poderoso o suficiente para mudar o fim inevitável de tudo?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Porque eu estou indo para onde eu vou


Dia desses recebi um email contendo antigas profecias maias sobre o fim do mundo em um texto cheio de imagens atemorizantes e purificadoras.

Dia desses fiquei pasmada assistindo uma edição do Lavanderia da MTV em que uma garota repleta de tatoos e modificações corporais extravasava todo seu desprezo pelos seres humanos comuns (leia-se não tatuados e não modificados) ao mesmo tempo em que quase implorava por sua aprovação.

Dia desses li um capítulo de uma simplicidade contundente num livro da década de 90 em que um pai escreve cartas a seu filho sobre vários aspectos da vida masculina que necessitavam reflexão e cuidado no processo de aquele filho tornar-se um homem. Era uma carta sobre espiritualidade.

As profecias maias alertavam para um tempo onde sanções e códigos sociais deixariam de existir e o que pareceria permissividade em excesso ia determinar o modo de cada um julgar a si mesmo e equilibrar seus valores com seu próprio comportamento.

O barraco do programa de televisão soa como um paradoxo se o confrontamos com essa profecia.
A menina escolheu tatuar cada centímetro que tatuou e escolheu mutilar cada centímetro que transformou do próprio corpo. Cobrar a aprovação unânime do restante da sociedade não parece fazer muito sentido. Quem estava lá opinando contra ou a favor também não fazia muito sentido. Porque a real discussão não era acerca de arte corporal, cultura pop ou enquadrar pessoas dentro de paradigmas como descolados e caretas. No fundo, era uma discussão sobre valores arraigados nos espíritos de cada um.

O que leva ao terceiro item da proposição: a lição de espiritualidade que o pai ensina ao filho não era um dogma para que o filho seguisse determinada religião e nem era um código moral que ele desejava ver o filho respeitar. É mais profundo que isso. O autor assume que o cerne de cada religião está ligado à verdade e que cada uma funciona como um instrumento de uma grande orquestra. Cada pessoa toca o instrumento que melhor se encaixa ao seu espírito... O importante era o filho saber que cada religião era um caminho que conduzia ao mar. E que a escolha sobre que caminho seguir era muito pessoal. E que mesmo que nenhum instrumento o tocasse, ele desbravaria seu próprio caminho se acreditasse que o mar estava além. Ele alertou o filho de que também havia quem não escolhia caminho nenhum. Essas pessoas eram como sapos que viviam dentro de poços e que não acreditavam que havia mar.

A poesia da metáfora contida nesse capítulo, o absurdo do paradoxo apresentado no dilema da freakgirl e a atualidade de um dos aspectos de uma profecia da civilização há tempos extinta, surpreendentemente, mostram a mesma coisa. Viver de acordo com a verdade significa encontrar a verdade dentro de si mesmo. E só aí. Significa se comprometer com o caminho que escolhemos e nos sentir felizes e plenos com nossas escolhas, mesmo que não exista parâmetros sociais ou históricos para os pesarmos. O fiel dessa balança só pode ser encontrado no íntimo de cada um.

domingo, 3 de agosto de 2008

Um conto de transformação


clique na imagem para assistir o trailer

O Castelo Animado, desenho japonês baseado na obra da autora inglesa Diana Wynne, é uma história que apresenta insights poderosos sobre busca interior, transformação e reciprocidade em um nível profundo de leitura que faz todo o dogmatismo costumeiro dos contos de fadas soar bobo e leviano.

Sophie é uma jovem tímida e insegura que vive uma vida reclusa e solitária, tomando conta da chapelaria que herdou do pai. O lugar onde mora está na iminência de uma guerra e um incidente faz com que seu caminho se cruze com o do mago Howl, feiticeiro temido por devorar o coração de moças bonitas. O breve encontro desperta a ira da Bruxa das Terras Abandonadas, que transforma Sophie numa velha de 90 anos. A garota não pode contar a ninguém sobre seu feitiço e, por isso, foge indo parar justo no castelo do Howl.

O castelo é mágico e perambula pelo reino protegendo o paradeiro do bruxo, que é bastante poderoso, mas também narcisista e covarde. Neste lugar itinerante também vivem Markl, um garotinho aprendiz de mago e Calcifer, o demônio do fogo que habita a lareira e mantém o castelo em funcionamento... Mais do que resumir o enredo caleidoscópico do filme, o importante é dizer que nesta história nenhuma personagem é o que parece ser. A trama não se estrutura de forma convencional, uma vez que não há protagonistas e antagonistas declarados. Cada personagem lida com as dicotomias presentes em seu próprio interior e é somente quando todos encontram o equilíbrio interno que tudo ao redor se resolve.

É interessante observar essa dinâmica que não reduz as personagens em clichês maniqueístas. A jovem Sophie se transforma em uma velha, mas essa imagem não é nada além do que já estava presente em seu íntimo... fechada em sua loja de chapéus, encerrada em si mesma, protegendo-se da vida... escondendo-se como que em baixo de um chapéu invisível que tapava qualquer possibilidade de contato com a luz do sol (da vida)... Sua coragem só emerge quando ela se reconhece envelhecida, e não é por acaso que ela torna-se uma florista em determinado ponto da trama. O fato parece querer sinalizar ao telespectador que ela está desabrochando para a verdade da sua própria essência.

Aliás, o filme é repleto de imagens simbólicas. Não é de se pensar como algo tão sólido e estruturado quanto um castelo pode se movimentar, fazendo desfilar pelas janelas as paisagens mais diversas?! Isso mostra o quanto a instabilidade tem peso no enredo. Mostra o quanto tudo está em constante transformação... Daria até pra escrever outro post linkando essa idéia com o conceito de destruição criativa de um post anterior, já que é justamente disso que se trata a catarse de cada personagem e a soma delas para a construção do desfecho.

O complexo processo de purificação de cada elemento pontua o contexto do macro universo em que habitam. Assim, a iminência da guerra coincide com a inquietação interior de cada um; a eclosão da guerra, com a luta que cada um se viu obrigado a travar consigo. E é fundamental perceber que o termo da guerra só pôde ser alcançado quando todas as personagens foram capazes de se redimir, o que faz absoluto sentido se notarmos que havia uma estreita ligação entre elas. Apocalíptico, não?!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A ilusão da beleza


Esse aqui é um filminho antigo do Dove, mas mostra escancaradamente como a ilusão se alastra nos tempos de agora. Ele termina dizendo algo do tipo "não há dúvidas de que nossa percepção da beleza está distorcida".

Então, quer dizer que eles pegam um menina qualquer com espinhas e cabelo meio ensebado, fazem nela um dia da noiva em fast foward, daí muitos cliques depois acham a foto certa e tudo podia acabar por aí, mas não! Nada vai pra produção sem uma sessão de photoshopagens extremas que transforma a menina sem gracinha do começo do filme em uma top-top-model que nós olhamos nos outdoors da cidade e imediatamente aceitamos consumir o que quer que seja que nos empurrem que contenha a fórmula mágica que vai nos deixar exatamente igual aquele rostinho bonito do anúncio!

Que fique muito claro que este post não é uma apologia à feiura... Mas, acorda! O mulherão do outdoor não se parece nem mesmo com a menina sem gracinha da sessão de fotos... Por que acreditamos que nós vamos ficar igual a ela?! Aliás, por que acreditamos que temos que ficar igual a alguém para sermos bonitas?!

Talvez porque desde a infância ganhamos pelo menos duas barbies por ano... Talvez porque em todas as histórias da TV a "princesa" e "heroína" é loira, magra, alta, de cabelo liso e todos os corações se derretem por ela... (e mesmo que a princesa Fiona tenha escolhido ser um ogro, duvido que alguém aqui faria a mesma escolha) ...Talvez porque uma meia dúzia de pentelhos da época do colégio fizeram piadinhas pejorativas a respeito de certa característica nossa e ficamos chorando trancadas no quarto por hoooras nos desesperando porque não éramos como a Maria Joaquina... Talvez porque as amigas que primeiro arranjaram namorados tinham um biótipo e uma personalidade bem diferentes da nossa...

Opa! Então, a finalidade de tudo isso é ser amada?! Perseguimos ideais de beleza padronizados que querem transformar todas as mulheres do mundo em barbies... em mulheres diferentes das mulheres que somos e ainda por cima, queremos que nos amem!? E agora eu bem poderia começar aquele papinho batido sobre se você não se ama, quem vai te amar e todos os jargões do gênero... mas poupe-me! Todos já sabemos disso. E nem vou começar o papo sobre anorexia e distúrbios alimentares e psicológicos porque acho deprimente por demais...

Acho que devemos perseguir a beleza sim. Mas não obsessivamente. E nem com o objetivo de sermos amadas só por isso. A beleza física é muito efêmera e superficial pra ser requisito de amabilidade. E eu desconfio que é belo de verdade quem persegue a beleza da alma, sem se violentar e sabendo preservar cada detalhe que o torne único e que o faz ser exatamente quem é... e ser feliz assim, dos pés até a ponta do nariz!

+++
Mulheres Perfeitas
Conceito de Beleza (tem que procurar o texto no indice)
A Beleza está na Diferença

terça-feira, 29 de julho de 2008

Destruição criativa


"Todo ato de criação é, antes de tudo, um ato de destruição"
Pablo Picasso

Existe um conceito, de que lançaram mão pensadores como Bakunin e Nietzsche, chamado "destruição criativa" que foi amplamente difundido através da visão do economista Joseph Schumpeter acerca do capitalismo. É um conceito econômico poderoso, uma vez que dá conta de explicar muito da dinâmica das transições na indústria que rompe com antigos paradigmas e é fundamento de teorias do crescimento endógeno e da economia evolucionária.

Zzzzzzzzz... Tá, é um papo chatíssimo que quase não interessa a ninguém e, por isso vou cortar o discurso enciclopédico porque acho que já deu pra pegar o espírito da coisa. Aliás está bem sintonizado com o compasso deste mesmo blog; e se você ainda não pegou, a citação do Picasso ali em cima talvez te ilumine...

Se criar é destruir, podemos entender porque é necessário haver uma era de destruição. Aliás , a própria visão cíclica do hinduísmo que conta o tempo universal em eras que se sucedem infinitamente, mostra que Kalyug irá conduzir os homens de volta à era primordial, como está escrito nos puranas:

"Quando os ritos ensinados pelos textos tradicionais e as instituições estabelecidas pela lei estiverem prestes a desaparecer e estiver próximo o termo da idade obscura, uma parte do ser divino existente pela sua própria natureza espiritual segundo o caráter de Brahman, que é o princípio e o fim... descerá sobre a terra...

Sobre a terra, restabelecerá a justiça: e as mentes dos que estiverem vivos no fim da idade obscura despertarão e adquirirão uma transparência cristalina. Os homens assim transformados sob a influência desta época especial constituirão quase uma semente de seres humanos e darão o nascimento a uma raça que seguirá as leis da idade primordial (satya yuga)".

Daí, voltando à perspectiva materialista da discussão, questiono se todo esse discurso de sustentabilidade, responsabilidade social, e etc de que corporações e governos se apropriaram, é legítimo e se realmente pode instaurar uma mudança e contribuir para um mundo novo.

É bom acreditar que sim. Mas é melhor acreditar que uma nova era não vai surgir do exterior para o interior de cada um. É necessário que cada um faça sua faxina interna e destrua o que não serve mais, o que não cabe mais e desperte para uma consciência nova (que na verdade é velha, porque é primordial. É a consciência que perdemos). Considero que assumir uma atitude criativa perante cada instância da vida terrena só é possível se a alma for purificada.

Tem uma frase do Erich Fromm que dá uma dica sobre como as condições para o despertar da criatividade provém do íntimo: "Antes de tudo, é indispensável estar perplexo." É preciso estar pasmo ante à realidade para olhar o que todo mundo vê e enxergar além do que enxergam.

No entanto, perplexidade somente não é o bastante. Se os grandes artistas fossem preguiçosos o suficiente para deixar que suas obras durassem apenas o momento da inspiração, os museus estariam cheios de telas em branco e eu não poderia recorrer a esta imagem para terminar o post querendo dizer que criatividade é só um comichão que sussurra ou grita no ouvido da gente "vai trabalhar"!

domingo, 27 de julho de 2008

Into the wild, man


Bom... não é bem mais uma novidade do cinema, mas como não compactuo com essa cultura do imediatamente descartável, gostaria de registrar aqui minhas impressões sobre a biografia aterradora desse cara que, muito antes do Tyler Durden, rompeu com todos os vícios da sociedade de consumo e rumou para o Alasca sem grana, sem carro e sem nada além de um obsessivo anseio por reencontrar a si mesmo na natureza selvagem.

Christopher McCandless, prole da típica família-anúncio do american way of life, acabara de terminar a faculdade (o que enchera seus pais de orgulho... de si mesmos?!) e justo quando estava pronto para participar da dinâmica materialista do jogo social... (pausa de suspense)... ele virou as costas, desfez-se de suas economias, picotou cartões de crédito, abandonou seu carro e munido de livros sobre a flora local e clássicos de Tolstoi, Thoreau e Jack London; perambulou pelo território americano (até chegar ao Alasca) colecionando ensinamentos e encontros com pessoas cujas vidas transformaram-se irreversivelmente depois de verem-se refletidas na trajetória obstinada do supertramp.

Não vou estragar a surpresa de quem ainda não assistiu (e se você faz parte deles, leia só mais esse parágrafo), mas negar o materialismo da sociedade em que viveu e aceitar que a verdadeira essência do ser reside na natureza, e não em toda parafernália que criamos para evitar o confronto com nosso self original selvagem foi um ato de extrema coragem e desapego para um cara de 22 anos que tinha tudo pra ser mais um boyzinho dos anos 90.

Se você já assistiu não vai se surpreender com o fato de que ele morre no final... completamente solitário e fragilizado pelas vivências extremas que sofreu na tundra. É um final tocante e imagino que conseguiu arrancar lágrimas até do mais frio coração... Espero que sim, porque chorar no fim é um ritual ancestral que deixa registrado na alma de cada um a sabedoria de descobrir que a felicidade só faz sentido quando é compartilhada. E que compartilhar é um gesto de empatia, consideração e amor.

Acredito que se reintegrar à sociedade, tal qual ela se configura, seria impossivelmente frustrante (na falta de uma expressão mais contundente) para McCandless. Não há outro final para ele, senão morrer.

Não há caminho de volta quando se depara com o limiar da Verdade.

sábado, 26 de julho de 2008

Simples


Antídoto para tempos de kalyug: tornar a vida simples, e com trilha sonora!

Segundo Sudha Gupta, diretora geral da Brahma Kumaris no território da antiga União Soviética, existem pelo menos seis aspectos que complicam nossas vidas e todos eles tem a ver com os relacionamentos humanos, familiares, comunitários ou internacionais

Ela diz que cada ser humano encontra-se isolado e que, por isso, enfrentamos graves problemas de comunicação que tornam nossas vidas infelizes e frustrantes. Além de nos comunicarmos pessimamente, o que significa que raramente damos um passo na direção do outro e que ao privilegiar as qualidades negativas de uma pessoa no acervo de nossa memória (ou ao fofocarmos sobre elas para terceiros) acabamos por potencializá-las; também desgastamos muita energia nos prendendo a situações que já aconteceram e desejando posses materiais.

Ou seja, além de sermos ilhas humanas ficamos nos iludindo ou com o passado ou com o futuro. Nunca estamos presentes e talvez, por isso, não conseguimos enxergar porque nossas vidas tornaram-se tão complicadas. Então é só lembrar: "Quanto mais simplicidade, melhor o nascer do dia".

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A little better

(foto via notcot)

Ok, muitos acreditam que o design não pode salvar o planeta! E realmente, não pode. Pelo menos não sozinho. Mas, parafraseando outra vez o fundador da Adbusters, Kalle Lasn, "designers vivem no córtex direito do cérebro. E isso os presenteia com um poder especial. Se eles aprendessem a usar esse poder de modo diferente, então, poderiam contribuir para a construção desse futuro que, desesperadamente, precisamos".

Acho que esse posto de gasolina mostra um pouco como usar esse poder de modo diferente. Eu ouvi falar dele na 22ª Semana Internacional de Criação Publicitária durante a palestra do Brian Collins, o baixinho genial da Collins Design Research, autor deste e de muitos outros projetos bacanas. E já adianto, ouvir esse cara vale mil vezes mais a pena do que ouvir o standup comedy de criativos festejadinhos como o Nizan, por exemplo...

Enfim, Helios House é um posto de gasolina high tech no coração de Los Angeles que combina sustentabilidade, design, educação ambiental e experiência num só pacote. O que ele tem que outros postos não têm?! Claro que esse visu não é uma fantasia de nave espacial vestida na estrutura do posto... são placas solares que geram energia suficiente para as necessidades do empreendimento. O material usado na construção é eco-friendly e cada espaço é demonstrativo de tecnologias verdes e oferecem dicas para os clientes adotarem hábitos ecologicamente corretos. Outra coisa legal: a Collins desenvolveu uns postais promocionais impressos num papel que pode ser amassado e plantado, porque há sementes prensadas nele.

Em cima do posto há outdoors dizendo "a little better"... E acho que só não é mais do que "um pouco melhor" porque afinal de contas eles estão vendendo gasolina!!!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Rice and beans...

Através do site do movimento Slow Food brasileiro (uma associação contra os efeitos padronizantes do fast food, o ritmo frenético da vida atual, o extermínio de tradições culinárias regionais e assuntos afins), encontrei um Manifesto sobre o Futuro da Alimentação.

Este documento foi apresentado na 4ª edição do Forum Social Mundial em Mumbai, na India pelo Comitê Internacional para o Futuro da Alimentação e da Agricultura e apresenta o real contexto em que a cultura agrícola de hoje em dia está inserida, leia-se, atrelada aos interesses de grandes corporações e funcionando segundo o compasso da linha de produção fordiana.

O paper expõe todas as mazelas e perigos deste sistema, mas também fornece alternativas e soluções. Na verdade, diz que muitas destas soluções já foram postas em prática em alguns lugares. Só que, como ecossistema humano que somos, interligados uns aos outros, atitudes isoladas são contribuições de pouco vulto para mudanças significativas na realidade do planeta.

Observamos os preços dos alimentos em contínua escalada e acabamos por achar que não há alimento suficiente para todos. Na verdade, o que parece haver por trás disso é uma especulação comercial, uma vez que os grandes do segmento alimentício têm carta branca para se apossarem de sementes, alimentos e terras produtivas ferindo direitos tradicionais de produtores locais e impedindo que famílias e comunidades dediquem-se à formas sustentáveis de sobrevivência, como sempre fizeram (e depois querem nos fazer acreditar que sustentabilidade é um conceito novo e fresquinho do século XXI).

Leiam o manifesto... e entendam porque urge que compremos produtos locais, produtos da época, alimentos fornecidos por pequenos produtores e todo esse papo que corre na mídia anti mainstream, como as revistas Vida Simples ou a dos Vegetarianos.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O extraordinário é demais



"Não faça nada a não ser que seja necessário e útil.
Porém, se for algo necessário e útil não hesite em fazer com que seja belo."


Pra quebrar um pouco essa lógica da racionalização da produção dos bens de consumo que postei até agora e relembrar o Balu (aquele urso fanfarrão do desenho do Mowgli), reproduzo aqui essa máxima da filosofia do design shaker. Os shakers são protestantes, que assim como os quakers, acreditam que Deus pode ser encontrado muito mais dentro de nós mesmos do que em cultos ou rituais.

Segundo a Wikipedia, eles também acreditam que suas vidas devem ser dedicadas à busca pela perfeição e que uma das formas de alcançá-la é trabalhando duro. Isso fez com que se tornassem hábeis construtores que contribuíram largamente para a história cultural dos Estados Unidos.

São autores de um design de mobiliário único. Minimalista e sóbrio. Sem detalhes elaborados ou decorações exageradas, uma vez que isso seria desrespeitar sua própria filosofia e; porque para eles o trabalho é um ato de oração deviam fazê-lo, sobretudo, com beleza.

Eu não sou shaker, mas considero isso um ato de profundo respeito pelos recursos naturais que o planeta oferece para que possamos criar o necessário "somente o necessário" pra viver aqui..."por isso é que essa vida eu vivo em paz!"

Surplus = excesso


"Se na América latina o gozo dos bens terrenos está reservado a poucos, é preciso que a maioria se resigne a consumir fantasias. Vendem-se ilusões de riqueza aos pobres e de liberdade aos oprimidos, sonhos de triunfo aos vencidos e de poder aos fracos."
Eduardo Galeano

Surplus - Terrorized into being consumers é um documentário sueco de 2003 que apresenta uma crítica contundente à cultura de consumo e ao largo apelo ao consumo no pós onze de setembro. Apelo do próprio presidente Bush, como você deve ter visto ou verá no filme Story of Stuff, que eu indiquei no post anterior.

É um tanto quanto desesperador constatar que as premissas fundamentais da sociedade em que vivemos são ilusões. E que somos atirados num moinho que gira rápido, rápido, cada vez mais rápido só para que não percebamos que estamos vivendo uma ilusão em seguida da outra...

Eu bem sei que vivemos num país (dito) em desenvolvimento. Cheio de mazelas sociais e econômicas. Sei que não consumimos na escala do povo estadunidense... Mas, não estamos consumindo seu lifestyle?!

É interessante a discussão do filme a respeito dos males da globalização, que extermina diferenças culturais porque não é nem um pouco democrática e de como por trás de políticas sociais, o governo atende muito mais aos interesses do corporativismo do que aos da população.

aqui o link da primeira parte do documentário, infelizmente não tem legenda em português!

A história das nossas coisas



Além de se preocupar com as questões filosóficas fundamentais, como "de onde viemos" ou "o que estamos fazendo aqui", você já parou pra pensar de onde vem as coisas que a gente compra prontinho nas lojas e pra onde elas vão depois que as jogamos no lixo?!

Annie Leonard, uma mulher que não se preocupa apenas com roupas e sapatos, mas com o impacto que o consumo desses itens provoca no planeta e nas sociedades, percorreu muitos caminhos e descobriu um monte de coisas interessantes que todos devem saber antes de ir correndo pro shopping quando a TV anuncia a próxima liquidação.

The story of stuff, é um documentário deliciosamente didático que explica cada etapa do processo que impulsiona o consumo a níveis cada vez mais desenfreados e que está enchendo nosso planeta de lixo. Há que se dizer que Annie apresenta tudo com uma certa ironiazinha muito sutil mas que acaba por acordar nossa mentalidade condicionada a essa lógica insana do consumismo como objetivo fundamental de felicidade e júbilo.

Aqui você assiste a versão com legendas em português. E aqui, você assiste a versão interativa (sem legendas) no site da própria Annie Leonard.