quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Pare de reclamar e AJA

A India é um país que vem apontando como promissora potência em campos tecnológicos antes reservados somente aos países ricos e soberanos. Daí que é legal e inspirador ver como seu povo (que semelhante ao povo brasileiro deve padecer com o sentimento de inferioridade) está lutando para recuperar o orgulho e a dignidade próprios.

Parece que em 2007, lançaram um reality show de cunho extremamente político chamado Lead India que pretende desvendar pessoas com potencial para liderar o país e mudar coisas sobre as quais todos até agora só reclamaram, ignoraram ou fizeram piada a respeito. Longe de ser um Big Brother engajado, a proposta pode soar tosca para quem já está de saco cheio de banalizações... só que, por outro lado, o voyerismo inerente aí faz com que ela soe surpreendemente democrática. Afinal, também estamos de saco cheio de falácias.

Anyway, a mensagem residual desse filminho (que achei de uma singeleza cativante) é a de que se todos parassem de praguejar a respeito do que está ruim e se posicionassem como agentes da mudança as coisas não teriam outro destino senão melhorar! Tá que o mote de que a união-faz-a-força seja um clichê... mas numa época de ado-ado-ado-cada-um-no-seu-quadrado, resgatar clichês pode ser relevante, pode ser inspirador, pode mudar a rota de quem até agora se movimentou apenas por inércia.

Falar em clichês, o protagonista só podia ser mesmo uma criança. Crianças não se enrijeceram com padrões previamente estabelecidos. Crianças são capazes de realizar coisas que os adultos julgam impossíveis. É por isso que o futuro são as crianças. E no entanto, pensar isso é continuar enrijecido; porque assim nos livramos da responsabilidade de fazer do futuro um lugar melhor.

Mais certo seria entender que para mudar alguma coisa temos que encontrar a criança que mora em nós, ou seja, temos que jogar fora o que acreditamos conhecer e saber e nos guiar pela intuição. Porque ela confia e se adapta às leis que regem o universo, porque sabe que não há outro modo de alcançar a harmonia e a evolução senão através da humildade de desempenhar o papel que lhe cabe e da responsabilidade de seus atos.

A trilha sonora reflete o mesmo conceito do roteiro e traduz uma mensagem bem clara e simples: Tenha orgulho da sua existência e das suas ações e nada será impossível. Eu até achei a letra original em hindi, urdu ou sânscrito (?!) do compositor Gulzar Saab e vou reproduzi-la abaixo para quem quiser gostar mais ainda do filmito!

TUM CHALO

Falak pakad ke utho, aur hawa pakad ke chalo 2x
Tum chalo, to hindustan chale 4x

[Lagao haath ke suraj subah nikala karein
Hatheliyon bhare dhoop aur uchhala karein ] 2x
Ufaq pe paav rakho, aur chalo akad ke chalo
,
Falak pakad ke utho, aur hawa pakad ke chalo 2x
Tum chalo, to hindustan chale 4x

(que, em linhas gerais, significa: Segure o céu para que ele permaneça no alto e caminhe carregando o vento em suas mãos. Seja o corredor que segue em frente , porque quando você caminha, a India caminha com você. Use suas mãos para fazer o sol nascer pela manhã. Preencha suas mãos com os raios solares e os semeie ao seu redor. Mantenha suas pernas no horizonte e caminhe com orgulho, pois quando você caminha a India caminha com você.)


video

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Começa com uma garota...


Eu achei incrível o modo como com tipologia e música esse projeto pretende mudar o futuro da humanidade.

Pena que tem só em inglês, mas eu conto o que quer dizer pra quem não sabe: Quando vc abre o site vem uma pergunta logo de cara: "O mundo está uma zona?" e vc pode clicar em "concordo" ou "não concordo" para continuar.

Creio que 99,9% das pessoas vai concordar, mas quem não concorda acaba sendo convencido do contrário e o site apresenta um videozito que achei genial! Construído exclusivamente a partir da dinâmica da tipografia que conta o roteiro acompanhado de uma trilha sonora delicada, você é levado a imaginar a situação de uma garota que vive na pobreza. É levado a imaginar o que aconteceria se você pudesse ajudá-la de alguma forma a melhorar sua vida. Basicamente a idéia é essa: se a vida dela melhora, a vida dos que estão ao redor dela melhora, e consequentemente o futuro da humanidade melhora.

Não há nada de original nisso. Mas a verdade tão contundente de uma lógica tão simples expressa através de um design fantástico é a imagem mais adequada para convencer a sociedade dos tempos de agora. É aquela velha questão que Mark Rothko já expôs de que cada época precisa de suas próprias imagens, ou coisa parecida...

Ter que imaginar essa garota num contexto cultural caracterizado por ser extremamente visual, onde todas as imagens estão prontinhas para o consumo e para que nossa imaginação torne-se cada vez mais estéril, faz com que ela, a garota, seja mais real do que se figurasse num filme kind of melodramático, não concordam?!

Imaginar a tal garota é como fazê-la nascer dentro de nós e permitir que ela habite nosso imaginário... concordam? Imagino que se a solução criativa aqui fosse um filme no estilo tradicional, que pegava uma garota e a fazia interpretar a garota pobre do roteiro, quem assistisse o filme acabaria por não dar valor a ela, a garota... Acabaria por vê-la tão longe de si, que ignoraria o apelo da mensagem.

Quando imaginamos, a coisa imaginada fica morando dentro da gente. E é por isso que acredito que este projeto pode dar certo. Porque parte do íntimo de cada um que se desafiar a imaginar uma garota e a acreditar que tornar-se melhor, é tornar outros melhores e é tornar o futuro melhor.

Outra solução que achei incrível foi a estruturação do site em três itens: "aprenda", "mude", "compartilhe"... Não concordam que podemos usar os mesmos três passos para melhorar qualquer coisa que quisermos?!

De mais a mais, não é difícil concordar com o fato de que um futuro melhor não seria má idéia e se essa tarefa está em nossas mãos, por que se recusar a abraçá-la?! Concordam?!

domingo, 7 de setembro de 2008

Feliz, dos pés até a ponta do nariz.


Eu comprei esse livrinho pra minha filha... e o acharia despretensioso não fosse o display na livraria anunciando-o como "altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil". Mas só por isso mesmo... ah! e pelo fato de a autora ser premiadíssima...

Mas trata-se realmente de um livrinho lindo e despretensiosamente escrito, ilustrado ao estilo de Sempé do meu querido Le Petit Nicolas... E digo que justamente porque é tão simples é que é tão genuíno e verdadeiro.

Conta a história da ovelhinha Selma, cuja rotina de comer grama, ensinar as ovelhas bebês a falarem, comer mais grama, praticar um pouco de esporte, papear com a Dona Maria e dormir é a sucessão de eventos mais enfadonha de que já ouvi falar e a única que faz de Selma uma pessoa, ops, ovelha plena e feliz!

Surpreende que ao ser questionada sobre ter mais tempo ou ganhar na loteria, a fofíssima Selma responde a exata descrição de seu cotidiano monótono como citado no parágrafo ali de cima!

Antíclimax?! Ou receita literária pra pedagogia infantil pós contemporânea? Sim... faço-me essa pergunta porque se os contos infantis que embalaram os sonos ("pedagógicos?") de milhares de nós na infância, fossem estruturados desta mesma forma, não haveria uma quantidade medonha de princesas insatisfeitas que trocariam tudo para se aventurar na companhia do primeiro desconhecido com quem seus caminhos se cruzassem e, diga-se de passagem, a história terminar justamente onde devia começar com aquele frustrante, duvidoso e recorrente "foram felizes para sempre"...

Não haveriam estereótipos de heróis que refletiriam sombras amedrontadoras de síndromes de perseguição por bruxas, dragões e demais antagonistas cuja existência baseava-se única e exclusivamente em tramar o fracasso dos intentos daqueles assim-chamado heróis.

Não haveria a noção de que a felicidade é como um troféu conquistado somente depois de muito sacrifício, prejuízos e vicissitudes...

Poderíamos ter crescido ouvindo que a felicidade é uma coisa simples, tangível e que não a alcançaremos se a vislumbramos como finalidade. Que ser feliz é saber que a rotina diária é uma coisa chata e enfadonha, sem extremos de sexo e violência folhetinescos e ainda assim amar e sentir gratidão por onde se está e o que se tem de fazer... É por isso que mais tempo ou um prêmio da loteria não fariam nenhuma diferença no cotidiano da Selma.

A sabedoria desta simpática ovelhinha que mora dentro de um pequenino livro vermelho de capa dura sim, é que vai fazer toda a diferença no arcabouço cultural e artístico que vai nutrir os anseios da minha filha... tão simples quanto contar carneirinhos na hora de dormir!