segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

De visita:

 

O filme "O Visitante" podia ser apenas um retrato de como os EUA passaram a tratar os imigrantes muçulmanos depois do 11 de setembro. Mas, muito além disto, o contexto é pano de fundo para uma história tocante sobre transformação pessoal.

O ator Richard Jenkins dá vida ao inexpressivo professor universitário Walter... um homem apático que parece nada fazer por ninguém dentro de sua confortável posição de catedrático...Dá aulas no mesmo curso  há 20 anos. Publicou 3 livros e finge estar escrevendo um 4º como álibi para não se envolver com nada e ninguém.  Incapaz de olhar para fora de si mesmo, Walter parece viver o ritmo mecânico daqueles que não acreditam mais, que não se movimentam mais e estáticos, tudo fazem para preservar o status que crêem terem conquistado na vida.

Assistimos Walter tentando aprender piano... sem sucesso. Ao ser dispensada, a quinta professora tenta dissuadi-lo da idéia de aprender música. Ele não tem dom.

Ao ser obrigado a deslocar-se até Nova York para uma conferência em que irá apresentar o paper de um trabalho do qual é co-autor (mas que na verdade nunca escreveu) Walter depara-se com o primeiro confronto que desencadeia todo o processo de transformação que sofrerá a partir de então. Seu apartamento está sendo ocupado por um casal de imigrantes muçulmanos: Tarek, um sírio de sorriso cativante e a imponente senegalesa Zainab! Mundos muito diferentes do de Walter estão ali em sua sala e em sua banheira... Talvez o susto faça com que Walter deixe por um momento de ser tão racional. Depois de terem concordado em sair da casa no meio da noite, o casal é convidado por Walter para passar aquela noite ali.
Estranho! Visto o homem não se interessar por nada ou ninguém!

Um pouco de alma começa a surgir em Walter, seu mundo vai se misturando ao mundo de Tarek e Zainab. Sua apatia vai se transformando em interesse pela música que Tarek produz com seu djembê. Tarek é então preso em uma estação de metrô. Não havia feito nada errado. Mas era um muçulmano ilegal nos EUA após o 11/9! É revoltante ver como o medo pode embotar  a humanidade de um país! Mas em maior escala faz referência à dor de Walter que também o embotava antes de Tarek e Zainab.

Walter se envolve mais! Contrata um advogado. Adia sua volta para Connecticut. Pratica o djembê. Aproxima-se de Zainab e da mãe de Tarek, Mouna. São dois momentos que achei bem marcantes na história: quando Tarek começa a ensinar Walter a tocar o instrumento, ele diz - Sei que você é um homem muito esperto, mas só por agora não pense! Pensar só vai atrapalhar. Depois da prisão de Tarek, Walter leva Mouna para conhecer a Broadway e durante o jantar confessa - Eu não sou ocupado. Eu finjo! Finjo que dou aulas e que escrevo um livro, mas não faço nada. 

Quantos de nós não está finjindo nesse exato momento?! Ocupados em não fazer nada?! Quantos de nós é capaz de parar de pensar e apenas sentir?! Quem é capaz de acertar o passo com um ritmo que nos envolve em algo muito maior que nós mesmos e nos revela que por maior que seja nossa capacidade cerebral ela nada significa se estiver a serviço do egoísmo? E é por isso que este filme precisa ser assistido. A questão da imigração é muito específica e temporal dentro do contexto humano da história. O essencial aqui é ser capaz de aprender a enxergar o outro sem resquícios de etnocentrismo e passar a enxergá-lo como um "outro eu", o que nos torna muito mais conscientes e o que teria o poder de dissipar qualquer medo e qualquer dor que nutrem todas as hostilidades do mundo.

Walter aprende que a vida não tem sentido sem o outro. Aprende que não pode ser uma ilha. Muito longe do sentido sociológico, Walter descobre um utilitarismo a serviço de algo realmente grande: o outro. Seus motivos egoístas e suas tristezas pessoais curam-se quando aprende a doar-se. Como poderia se manter apático depois de uma lição assim aparecer de visita: vivencia de forma contundente a dinâmica do dar e receber: Walter ganha de volta sua alma e a redime numa estação de metrô de NY batucando o djembê como alguém que tem  muito dom pra música!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Bird and the Bee



Depois da notícia impressionante dos pássaros e peixes: Ontem no facebook, uma amiga alertava sobre a extinção das abelhas... Vocês sabiam que elas correm risco de extinção?! Imagine um mundo sem mel... Oh!

Bom, comecei a pesquisar e achei esse blog, uma gracinha, Quero ser verde!. Tem um post de 2010 que diz que a radiação de celulares é responsável pelo desaparecimento das abelhas. Parece que a radiação interfere no sistema de navegação das operárias, que perdem o rumo de casa e acabam morrendo. Na colméia ficam apenas a rainha, ovos e operarias imaturas... O mais impressionante é que os animais e parasitas que poderiam atacar essas colméias por causa do pólen, se recusam a chegar perto delas. Parece que temem o estranho fenômeno que suscitou seu abandono...

Apicultores de toda Europa contabilizam perdas notáveis de colméias devido ao abandono das operárias. Segundo o "Quero ser Verde", a maioria das culturas do mundo depende da polinização das abelhas. E estudos comprovam que elas se recusam a voltar para suas colméias quando antenas de celular são instaladas nas imediações. Outro estudo comprovou que as radiações também interferem na produção de ovos e de mel.

Comecei a achar várias notícias... é tudo bem real! O triste é que não acho que ninguém vá abdicar do "conforto" proporcionado pelos celulares em favor desses diminutos seres e do gigantesco trabalho que fazem em prol da natureza. Infelizmente uma outra natureza, a natureza egoísta do ser humano faz com que nada a sua volta importe mais do que o que ele acredita ter conquistado e trazido pra dentro de sua zona/bolha de conforto. Mesmo aqueles de nós que tem a mínima visão das coisas, sente-se impotente e incapaz de mudar algo. Sente-se obrigado a aderir às conquistas tecnológicas e a incorporá-las em suas vidas. Do contrário ficarão sempre  à margem. E quem é que gosta do exílio?!

Ah! E como o oportunismo domina todas as esferas a Haagen-Daz lançou um site pra vc "ajudar" as abelhas fazendo uma doação, comprando um cartão ou criando sua própria abelhinha sem sair do conforto do seu computador e da internet. Eu me pergunto de que forma uma doação em dinheiro pode mudar os efeitos das radiações da telefonia móvel!!! Aliás o site não menciona palavra sobre a questão. Segundo o site, o objetivo da marca é criar conscientização para que as comunidades ajudem a trazer as abelhas de volta...       Inclusive, criaram um novo sabor deliciosamente doce para difundir a importância da espécie. "Um tributo a estas criaturas essenciais". LORD!!! Quer dizer que comendo um sorvete estarei ajudando a causa das abelhas... Quando é que as questões ambientais vão provocar algum movimento verdadeiro?! Até aqui eu assisto perplexa como é que se transformam todas em cases de marketing: o objetivo não é salvar as abelhas, é apenas produzir "buzz" para gerar mais vendas...     

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Tordos e Corvinas



Como posso?! Fico tanto tempo sem escrever nada aqui que é até falta de educação! Por favor me perdoem... mas a vida tem das suas correrias né! Bom, volto com a notícia que mais me chocou nesse começo de ano! Não é sobre as promoções da estação, não é sobre as chuvas (apesar de preocupantes), não é nem sobre a posse da nossa primeira presidenta do país... Acho até que a noticia que mais me chocou passou despercebida para a maioria das pessoas... não parece que muita gente está preocupada com isso de verdade ou que afete as vidas das pessoas tanto assim.

São os pássaros e peixes mortos sem causa conhecida até agora em vários países durante a primeira semana do ano! Embora nenhuma das fontes que eu pesquisei associe os eventos e até negue que tenham alguma relação, acho imaturo descartar essa hipótese sendo que ainda não detectaram uma causa plausível. Sim, porque fogos de artíficio?? Faça-me o favor! Então deveriam morrer todo ano... Sem falar dos peixes, morreram por que?! 

Não gosto de discursos desesperadores e infundados sobre o fim do mundo! Mas não é dificil perceber que há uma transformação em curso! Meu pai, sempre perspicaz, já associou a morte dos pássaros com a derivação dos polos, que se move 64km por ano em direção à Russia. Mas isso não explica por que pássaros de uma só espécie foram afetados, apesar de ser bem mais plausível que os fogos de artificio...

Também li algo sobre os pássaros terem um reserva de material magnético nos bicos e alguma alteração tê-los desorientado... Mas isso não explica a morte dos peixes. Enfim, postei tudo isso aqui porque  me deu vontade de continuar pesquisando... não dá mais pra ficar satisfeito com as notícias bobocas que querem que a gente engula! E todo mundo parece agir como se só o que importasse fossem as celebridades, as subcelebridades, o futebol, os itens de luxo... aff! Quem quiser se juntar, chega aí!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Alma grande


Nem sempre é bom revisitar o passado, mas dia desses tive uma grata surpresa quando fui consultar a programação do Sesc e vi que daqui meia hora ia começar o show do Sergio Pererê. Passei a mão na bolsa e na filha e fui correndo pra lá! 

Eu tinha assistido esse artista há uns 10 anos atrás quando acabava de entrar na faculdade em Minas Gerais e ficara impressionada com a força das imagens de algumas letras, com o porte orgulhoso do cantor e o poder de sua voz e batuques. O show conseguiu me transportar para uma áfrica muito brasileira que conseguia transformar a dor em ritmo e produzir uma energia tão contagiante que era capaz de fazer qualquer esperança florescer.

Não podia perder a chance de vivenciar novamente essa experiência! Amei do começo ao fim, mas queria compartilhar duas letras-poesia que me tocaram especialmente. Uma que ele fez pra mãe dele, Serafina! A letra é assim: 

Quando não vejo a vida no capim
Quando a estrada parece não ter fim
Se o mundo se torna tão ruim

Quando entro e não sei como sair
Quando perco a vontade de seguir
Se me esqueço do quanto é bom sorrir

Ela, Ela acende uma vela
Ela, Ela acende uma vela
pra mim

Quando me aperta o peito e a voz não sai
Quando o vento se cala e a noite cai
Se acredito na ausência de meu pai

Quando me falta sorte ou gratidão
Quando grito, esperneio ou choro em vão
Se acredito que o amor é ilusão

Ela, Ela acende uma vela
Ela, Ela acende uma vela
pra mim

É claro que transporto a idéia para dentro de  minhas próprias convicções! Não entendo a letra como desenvolvimento da frase tão repetida: "Reze por mim" ou "Rezarei por você"... Gosto do símbolo da vela, que indica que a mãe faz um desejo de luz para o filho quando ele vê apenas escuridão!  E a outra é "Alma Grande", que ele escreveu quando o pai faleceu! Achei tão especial o modo como ele encoraja o pai a seguir em frente e encontrar sua alma. Acho que nunca ouvi nenhuma outra canção cantar sobre a morte com sentimento tão genuíno e sem apego assim, como no trecho: "... Segue sem saudade de onde vem. Vive o ponto onde mira o seu olhar. Desespero e medo não lhe convém. Com seu novo manto caminhará e não caminhará só jamais".


Poesia assim engrandece mesmo a alma da gente!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Bodas


Um casamento na familia sempre faz a gente pensar no assunto! Qual o verdadeiro significado de se casar?! Sim... porque muitos se casam por motivos equivocados. Vide a quantidade de divórcios que pipocam por aí... Muitos casam-se por medo de passar o resto da vida sós...antigamente as mulheres se casavam para fugir do jugo de pais muito severos, casavam-se para legitimar a vida sexual que desejavam ter. Mas hoje, com paradigmas sociais mais flexíveis, por que haveríamos de querer nos casar? Percebo que ainda existem pessoas que vêem no casamento a promessa de uma liberdade que não têm e no fim reclamam de ter trocado uma algema por outra. Ainda existem machismos extremos (por parte de homens e mulheres) que vivem o casamento com papeis muito bem definidos onde o homem provedor controla uma mulher submissa que torna-se escrava doméstica /sexual.

Hoje as mulheres podem ser independentes (se assim quiserem) e não precisam aceitar uma relação unilateral, mas ainda romantizam o matrimônio, e no fundo acham que a submissão faz parte do jogo. Longe de querer denegrir esta instituição, vejo que cada um tem idéias muito próprias sobre o que quer receber de um casamento. Mas é raro alguém que realmente pense no que pode dar de si mesmo quando chega a hora de celebrar esse rito de passagem arquetípico.

Claro que também há aqueles que casam-se sem ter idéia nenhuma do que seja o casamento, vivem os preparativos intermináveis da cerimônia, a escolha do vestido, dos presentes, dos convidados ... e não constroem a base necessária para a vida em comum que se iniciará depois da celebração! O verdadeiro casamento só começa depois disso, afinal a cerimônia devia apenas simbolizar uma união e um compromisso que já existem. 

Numa época onde o individualismo é tão valorizado (apesar da solidão epidêmica que contamina toda a sociedade), fico me perguntando por que alguém ainda se casa?! Daqui a pouco estarão se desentendendo, brigando por ninharias, disputando algum controle sobre o outro. Então percebo que a humanidade é composta de otimistas! Mesmo sabendo de tudo isso, têm a capacidade de ignorar os fatos por completo e pagar pra ver se conseguem viver o ideal que almejam! Daí que cada um tem um ideal tão diverso do outro que fica difícil manter a harmonia.

Posso parecer muito negativa, mas ainda acho que casamentos verdadeiros... amores pra vida inteira... só acontecem quando se pensa no que você pode dar para o desenvolvimento individual do outro (ao invés de pensar no que quer receber). O Flavio Gikovate, que é referência no assunto, diz que geralmente os casais são compostos por um individuo generoso que doa e outro egoísta, que só recebe. É matemática! Nunca poderia haver harmonia assim. Dois egoístas também não melhoram muito o resultado da conta! Mas dois generosos?! Esses sim, acho que têm alguma chance!!!

A conclusão é que generosidade é amor posto em prática (que frase mais Khalil Gibram). E amor não se parece com posse ou cobrança. Amor não é receber, é doar! E quando a gente doa de coração aberto não pode esperar receber nada em troca... Claro que isso não é pra justificar as uniões entre generosos e egoístas, porque continuar dando pra alguém que só recebe também não é amor, é escravidão! Então ficam aqui os meus votos de que cada um sozinho aprenda primeiro a ser generoso antes de fazer uniões que busquem apenas atender a desejos narcisistas!